O primeiro relato da queda de um demônio
Há muito, muito tempo, quando a união dos continentes ainda formava um enorme waffle flutuante chamado Pangea, havia na região que hoje chamamos América do Sul um belo jardim chamado Éden*. Um lindo querubim caminhava sobre pedras preciosas entre as árvores frondosas daquele oásis. Ele estava muito orgulhoso de si mesmo pois há pouco havia se emancipado e adquirido sua independência financeira. Seu nome era Lúcifer e se ocupava em realizar palestras sobre auto-ajuda, nas quais discursava acerca de seus temas favoritos: "Como construir seu trono sobre as estrelas", "Seja uma divindade em 666 horas" e "Tenho potencial para ser o Chefe". Luci (como era chamado Lúcifer pelos amigos íntimos, principalmente o jocoso Azazel) trabalhava também na compilação de seus ensinamentos na forma de livro, mas sofria com as interferências de seu editor, que considerava ser o próprio diabo. Enquanto vagueava pelo jardim divagando em pensamentos de grandeza e feliz pela invenção de seu mais novo método para encarnação em serpente, Lulu (como era chamado Lúcifer pelos amigos íntimos, principalmente o jocoso Azazel) não observou que havia no chão, entre um topázio e um jaspe, uma casca de banana lançada ali por um ser chamado Adão que acabara de fazer uma grande besteira ao subir na bananeira e comer desse fruto num ‘paraíso tropical’ . Andando com suas asas recolhidas de forma desavizada e imprudente numa dimensão sujeita à gravidade, Lu (como era chamado Lúcifer pelos amigos íntimos, principalmente o jocoso Azazel) escorregou no que sobrou do fruto proibido e sofreu uma queda patética, estatelando a testa no chão e gerando dois galos enormes na fronte que mais pareciam chifres. A ‘terça parte’ dos anjos que observava tudo de um local privilegiado, caiu de rir. O homem, que após seu ato de desobediência estava sujeito à morte, morreu de rir. A mulher que havia primeiro provado a banana, sentiu dores de parto de tanto rir. A serpente que acabara de perder seus braços e pernas e andava em zigue-zague, se contorcendo devido a uma hemorróida que não tinha meios para coçar, exclamou em meio às gargalhadas: - Esse filho da puta bem merecia isso depois de me colocar nessa fria! Coce meu cu com esse tridente, bastardo, hahahahahahahaha!
O querubim se levantou e bateu a poeira de sua roupa escarlate. Ajeitou sua linda cabeleira. Levantou seu habitual olhar imponente e esnobe. Olhou para todos com a impáfia de um leão que observa hienas ensandecidas e murmurou: - Esse paraíso precisa de um choque de gestão.
Isso é tudo o que sei sobre o primeiro relato da queda de um demônio.
* Teólogos yankees acreditam que o tal jardim, também conhecido como Paraíso, se localiza na região da Mesopotâmia, no Oriente Médio. Tal crença originou uma recente cruzada em busca das riquezas do Éden, inundando de hordas ocidentais o território entre o Tigre e o Eufrates. Segundo a cabeça de um empresário americano que foi separada do corpo durante essa empreitada, embora exista no local muito conhecimento sobre o bem e o mal, algumas serpentes peçonhentas, muitos frutos proibidos, espadas flamejantes, alguns animais ainda não nomeados pelo homem e sujeitos nus sendo surrados por uma série de diabos, nada disso faz esse Éden se parecer com o paraíso narrado no Gênesis de Moisés. Obviamente, pura precipitação de uma cabeça decepada que no momento em que conheceu o fio da espada ainda não sabia que o barril de fruto proibido já havia passado dos 50 dólares.
Escrito por Evandro às 00h08
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